quando você se habitua a jantar pão velho com azeite e/ou pipoca, alguma coisa deve estar errada. deve haver algum efeito que vai refletir mais tarde.



Escrito por [andre castro] às 18h54
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Eu não duvido mais da capacidade da vida dar voltas e voltas e surpreender a si mesma e aos que estão nela. O importante é a gente não ter medo.

Escrito por [andre castro] às 16h36
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mensagem na secretária eletrônica.

Oi. Posso te conhecer de novo? Porque nada está melhorando, nem passando. Sinto falta da descoberta. Aquela sensação de coisa boa por acontecer.
...
...


Escrito por [andre castro] às 23h14
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Eu sou uma roupa velha

Desbotando no armário

Um livro que você não terminou

No mês do seu aniversário

 

Uma vela rezando final

Um dia que faltam as cores

Eu planto saudade vazia

Eu sigo regando as flores

 

Que você deixou

 

Essa casa é mesmo estranha

Os livros me recitam você

Essa mesa onde as folhas andam

Tudo isso, a luz da teve

 

A cortina que falta na sala

Um copo que já se quebrou

O vento que soprou para a morte

Nosso amor que não mais chegou

 

Hoje termina a semana

E eu tento desenhar você

Eu tenho um esboço na alma

E o traço que sua mão prevê.

 

É um velho caderno usado

Um recurso de pouca estação

Minha hora despede a loucura

E me curo da vida em vão

 

E parece que ainda estou são.

E parece que ainda há chão.



Escrito por [andre castro] às 19h48
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Minha própria Combray

assunto revisitado, o texto é novo.

 

No Caminho de Swann do Michel Proust é um de seus livros mais conhecidos, livro esse que dá inicio à série Em Busca do Tempo Perdido.

Eu já comecei a ler esse livro umas três vezes e sempre paro. É difícil, precisa de uma boa concentração e tempo dedicado a ele. Não é um livro que se lê no ônibus ou um pouco antes da hora de dormir. Apesar da minha repetida desistência, eu gosto muito da maneira como o autor-personagem consegue divagar sobre a infância, a sobre a maneira que está deitado na cama do quarto da casa-de-campo da avó ou de outro lugar, sobre o sono que sente e sobre a lanterna mágica pendurada no teto. É por causa desse livro que às vezes me pego sonhando ou resgatando cenas da minha própria infância, como flashes, fotos e curtas-metragens que ficam como que latejando no fundo dos olhos.

 

Uma dessas imagens mais antigas é uma que tenho de mim mesmo, brincando no chão da sala de TV da minha avó. Eu tenho nas mãos umas peças de jogo de dominó que, ao invés de pontos coloridos ou simplesmente brancos, possuem adesivos com o desenho de personagens da turma do Mickey. Por incrível que pareça, a que peça que mais me chama a atenção é uma da Florisbela. Porque eu não sabia o nome daquela vaca - vaca, o animal mesmo. Este pedaço específico de lembrança se conecta a algo bem mais recente - embora eu não seja capaz de especificar a data - esse algo é a voz da minha mãe dizendo “quando você era pequeno, brincava muito sozinho...cadê o André?; e lá estava você em algum canto”. Então eu imagino agora eu mesmo inventando as regras do meu próprio dominó. As peças falavam comigo? Pode ser.

Se eu der um impulso a mais na memória e recriar um momento tão antigo quanto esse, provavelmente estarei na casa da minha outra avó - que ainda hoje fica em frente a casa da avó das peças de dominó. Isso é antes da reforma, então a cozinha ainda tem aquele chão vermelho alaranjado e a parede da frente da casa, ao lado da garagem, possui um pedaço inteiro de madeira antiga, pintada de branco. Nessa cozinha, há garrafas de tubaína e isso indica que a hora é logo depois de um almoço, impreterivelmente de sábado. Minha prima está chorando por alguma razão que, ao meu ver - tanto de agora como da época - é incompreensível. Meu primo tem uma espingarda de brinquedo, daquelas que tinham um espaço para se colocar uma espoleta de pólvora que estourava com a pressão do gatilho. Ele não me deixa mexer. Diz com um ar de superioridade e como se fosse vantagem: “A minha mãe trouxe do P-a-r-a-g-u-a-i”. Mal sabia ele do que se trata(va) o Paraguai. Eu não sabia o que era também, podia parecer algo muito bom, um lugar especial de onde vinham os brinquedos mais legais. Mas como a espingardinha era muito feia, eu nunca me importei muito

Num instante, já estávamos brincando de outra coisa. Foi depois de algum tempo que essas criações fantásticas deram lugar ao futebol. Eu era um péssimo goleiro, e o passado começou a se tornar presente.



Escrito por [andre castro] às 21h51
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TRAVESSIA

 

Geralmente não gosto de colocar "coisas dos outros" no blog. Mas hoje, pra mim, essa é a letra definitiva de música. Mestre Milton e o grande Fernando Brant, pra variar. Leia com vontade e atenção esses versos. É bonito demais. Acho que todo mundo vive uma travessia. Atravessar a vida.

Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você      (olha só como é mesmo uma "segunda parte" isso aí)
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver



Escrito por [andre castro] às 20h41
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Capítulo avulso - Longa Distância, ano III

 

Eu não sei bem o que foi, mas eu sinto. Deve ser como uma presença que a gente sente e que vai embora. É difícil saber o momento exato, não é como “ah... agora passou”, mas eu posso sentir que não está mais aqui. Todos os lados estão repletos de pouca cor. Essa tinta cinza se espalha nos cantos, nos ângulos retos de cada parede, na parte mais escura de um tronco de árvore, no reflexo dos espelhos.

Não é algo físico, não está nos olhos, nem no tato da pele. É algo que fazia parte da alma, um encanto que amanhecia junto com a gente, uma magia real, que se fazia presente cada dia - aí sim se tornava real, como o cheiro do café pela manhã.

 

É bom desse jeito, quando chega sem avisar. Olha lá. É uma foto. É mesmo? Tem tanta cor... e quer sair do papel...

Essa sensação é porque você está vendo uma lembrança sua, no fundo do pensamento.

 

Queria tanto chegar onde você está, bailarina. Eu rezo todas as noites e torço sempre pra que algo de bom aconteça no meu dia. Não sei se alguém lá em cima me ouve de fato. Ou ouve, mas acha que não é importante. Eu quero muito chegar onde você está, mas parece que cada vez que eu tento, mais pra longe você vai, como se o meu toque pudesse desmanchar seu sorriso, dissolver a sua graça em sair dançando pelos corredores como se fosse um palco. Acho que um dia, você vai estar tão longe que não vou poder nem mesmo te enxergar. É assim que as coisas deixam de existir. Nem na memória é possível toca-las. Aí é necessário a gente passar a acreditar na verdade inventada da não-existência. Como se fosse uma notícia em uma revista científica, a gente duvida que possa existir.

 

Por isso, todo dia, eu tento te desenhar no meu caderno. Ainda não consegui, mas é uma maneira de te espiar sem você nem saber que eu estive por perto.

Sem você perceber que eu estou sempre perto, tentando abraçar você por mais tempo.



Escrito por [andre castro] às 21h47
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Pequena carta, endereçada ou não. Fica assim, quase que combinado: é de mentirinha pra quem não entender. E de verdade pra você.

 

Sabe, faz tempo que eu não escrevo em texto corrido assim, tenho me perdido em meio às palavras e surge um muro. O muro me impede de ir além do senso comum. E eu escrevo bobagens. Até agora pouco, eu olhava pela janela da sala. Eu fiquei imaginando você atravessando a faixa de pedestres e chegando até aqui. Tem coisas que eu sinto vontade de falar, mas preciso esperar você aparecer. Porque só você entenderia a profundidade escondida. Você é como eu. Somos estranhos num planeta sem graça.

Precisava dessa constatação - e fiquei feliz em descobrir assim, no segredo do escuro. O escuro é o silêncio da cor. Eu só te imagino quando o silêncio assim chega e não há limites pro pensamento. Seria banal eu recordar aquelas coisas de sempre. Eu fico me impedindo. Não quero fazer você se sentir mal. Os termos estão proibidos. Nem eu quero isso viu? Não quero essa coisa de se lamentar. Eu faço - eu sei, mas é sem querer: minha natureza de palhaço.

 

Aquela coisa de fazer cara de mal-humorado você sabe que é tipo. Me disseram hoje. “Você tem cara de mal-humorado, mas não é não.” Você nunca precisou me dizer isso. Antes de qualquer coisa, com um olhar, já havia me decifrado.

 

Contudo, agora, eu me sinto perdido. É como se o silêncio dos olhos tivesse invadido a alma. Não sei o que fazer. Desse lado aí do monitor, você não quer e não sabe como me ajudar.



Escrito por [andre castro] às 19h09
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Soneto Invertido.

 

O que eu fiz pra você?

será que você vai rir de mim

depois que eu for embora?

 

Será que é fácil me pedir

o tempo que - eu sei,

não posso jogar fora.

 

Eu quero mudar a página

fugir do pensamento

Eu quero a cura certa

O antídoto contra o momento

 

É quase sempre escuro

o mar que ninguém vê

oceano que navego

e me escondo sem saber.

Escrito por [andre castro] às 23h50
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da série VEGETAIS DO FUNK



Escrito por [andre castro] às 21h18
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Escrito por [andre castro] às 22h05
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há muito o caminhar não se tornava tão leve como foi. eu consegui sorrir por nada. sua voz fazia com que eu me sentisse satisfeito simplesmente por estar ali. e eu poderia ficar te espiando para sempre, ainda que do seu lado. foi estranho - mas bom. é como se eu estivesse te descobrindo de novo. te conhecendo por uma segunda vez. será que é isso mesmo?

Escrito por [andre castro] às 17h24
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Escrito por [andre castro] às 20h50
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Então existe o silêncio
Forçando, empurrando o pensamento
E dentro de mim-mesmo está escuro
escuro, escuro
em um momento, rompe-se a estática do silêncio:
Será alguém na porta?
E se esse alguém for você?
Ou será apenas o passado me lembrando
Sou eu ali na calçada
Eu te espero na calçada.
E ninguém pode me impedir
Me fazer mudar de idéia
Eu continuo ali pensando
As horas vão se esticando
Então a música da despedida se torna presente.
E a fumaça das horas é tragada para dentro de mim
Tudo está vazio.



Escrito por [andre castro] às 00h16
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A revolução e o que fizeram dela

São Paulo, manhã do dia 9 de julho de 1932.

No número 37 da rua Sergipe, um diálogo entre o general Euclides Figueiredo e o capitão Aristóteles Ribeiro dão uma idéia do momento que estaria por vir.

- Não podemos perder tempo com papéis - diz o general Euclides. - Precisamos de ação.
- Se houver a revolução, estarei com ela - responde Aristóteles.

Isso já faz tempo. De 1932 até hoje - 2006 - já são 74 anos. Mais de meio século entre a revolução constitucionalista de 32. Esse foi o levante contra o governo que pressionou Getúlio Vargas a promulgar a nova constituição. Entretanto, hoje em dia, o termo “nove de julho” dificilmente incita revoluções armadas e conjuntos de leis na cabeça das pessoas. É o caso de Josefa Francisca da Silva, de 19 anos. Josefa acorda diariamente a uma da manhã e faz os bolos, pães de queijo e o café que vende na Nove de Julho, na esquina com a José Maria Lisboa. Quando perguntada sobre a origem do nome da avenida, responde: deve ser por causa de algum político.
A Nove de Julho liga o Itaim-Bibi com o centro da cidade, cortando a região dos Jardins e Bela Vista. Na verdade, é possível dizer que a avenida rende uma bela amostragem da cidade e de seu crescimento desorganizado. Se pegarmos um ônibus partindo do ponto onde a Nove se transforma em Cidade Jardim e formos rumo ao centro, primeiro, veríamos prédios luxuosos, cheios de vidro e nas calçadas, carros importados e árvores se entrelaçando. Só nessa região existem cinco agências bancárias, duas escolas de inglês, um comitê eleitoral, um hospital-laboratório e uma faculdade, a FESP. Em pouco tempo, já estamos na região dos Jardins, nos aproximando da Avenida Paulista. E é nesse ponto que de súbito passamos por um portal que nos leva a uma outra dimensão. É do centro da cidade de que estamos falando.
O portal que nos faz ir de um ponto ao outro se chama túnel Daher Elias Cutait. É bem verdade que logo depois de atravessar o túnel encontramos a Fundação Getúlio Vargas e o Hospital Nove de Julho, acontece que em poucos segundos começam a surgir sinais: estamos chegando ao centro da cidade. O famigerado “centrão velho”. Prédios com as fachadas repletas de insígnias tribais: a marca dos pichadores. Esses prédios surgem como que colados uns aos outros, em meio aos viadutos e ruelas característicos de um lugar que cresceu demais e rápido demais. No final do passeio, chegamos à estação Anhangabaú, do lado de uma pequena ladeira com nome sugestivo para um lugar que nasceu em homenagem ao passado: logo ali, fica a Ladeira da Saudade.



Escrito por [andre castro] às 20h42
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